Coluna Abstartup: Quando a tecnologia deixa de ser artificial
A inovação acontece quando o cérebro humano decide chamar o novo de natural
INTELIGÊNCIA ARTIFICIALCOMUNICAÇÃOTECNOLOGIA
Elizabeth Rocha
3/26/20263 min read
Sobre a publicação
Coluna escrita por Elizabeth Rocha e publicada no Blog da Abstatups
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2026


A inovação acontece quando o cérebro humano decide chamar o novo de natural
Outro dia, tentei dar zoom com os dedos na tela do meu notebook. Ela não era touch. Fiquei rindo sozinha, imaginando se outras pessoas fazem isso também (você já fez?).
Esse gesto automático diz muito sobre nós: o quanto o cérebro humano aprende, repete e transforma o que era tecnologia em reflexo.
Pensando nisso, e inspirado na pirâmide de Maslow, o artista, filósofo e cientista holandês Koert van Mensvoort criou a “Pyramid of Technology,” que mostra como toda inovação nasce como uma visão e, à medida que é aceita e absorvida, deixa de ser percebida como “artificial”.
A pirâmide propõe sete degraus, e cada um deles é uma etapa no processo de evolução de uma tecnologia:
Envisioned (visão): é o momento do sonho, quando tudo ainda parece impossível — como quando Leonardo da Vinci desenhou máquinas voadoras séculos antes do avião existir.
Operational (protótipo): quando a ideia ganha forma ainda imperfeita, como os primeiros computadores do tamanho de uma sala ou, mais recentemente, os carros autônomos em testes.
Applied (aplicado): o estágio das primeiras aplicações reais como: impressoras 3D, realidade virtual ou assistentes de voz como a Alexa, que saem do laboratório e chegam às casas.
Accepted (aceito): quando o novo começa a fazer parte da rotina — como o smartphone, que deixou de ser luxo e virou necessidade; ou os pagamentos via Pix, que mudaram hábitos no Brasil.
Vital (vital): quando se torna indispensável — pense em energia elétrica, saneamento e internet. A ausência causa disrupção imediata.
Invisible (invisível): quando a tecnologia se dissolve no ambiente — como o GPS, os sensores automáticos ou a própria nuvem: não vemos, mas dependemos.
Naturalised (naturalizado): o estágio final, quando o humano e o tecnológico se tornam indissociáveis. O fogo, a roda e a escrita chegaram lá.
O fogo já foi milagre. A luz elétrica, um luxo. O wi-fi, um privilégio de poucos.
Hoje, tratamos todos eles como básicos. Só percebemos seu valor quando falta — e é exatamente aí que sabemos que algo chegou ao topo da pirâmide.
Como nômade digital, vejo isso todos os dias. A cada novo “lar temporário”, preciso de alguns pilares invisíveis: energia elétrica, wi-fi, água encanada e, se possível, uma geladeira. Sem eles, o mundo tem atrito. Não penso mais neles como inovações, mas como parte da infraestrutura da vida — um ecossistema natural que sustenta o cotidiano de pessoas como eu e você. E é assim que o novo se consolida: quando deixa de ser notado.
A neurociência explica por quê. Nosso cérebro é plástico, adaptável e curioso. Ele se reorganiza conforme repetimos experiências. O toque na tela, o comando de voz, o olhar para o GPS: o que antes exigia esforço hoje é instintivo. A tecnologia muda, o cérebro acompanha. E quanto mais natural se torna o uso, menos consciente ele fica.
Mas há uma armadilha nesse processo. Quando a tecnologia atinge os níveis invisível e naturalizado, ela também ganha poder: molda hábitos, decisões e até percepções sem que percebamos. A pesquisadora Kate Crawford, em Atlas of AI (MIT Press), lembra que a IA não é neutra nem mágica — é uma infraestrutura social, energética e política disfarçada de algoritmo. Por isso, como provoca Miguel Nicolelis, talvez ela não seja nem “inteligente” nem “artificial”, mas apenas o reflexo da mente humana.
Para as startups, a “Pirâmide da Tecnologia” pode ser uma ferramenta estratégica. Ela ajuda a responder perguntas cruciais como:
O produto da sua empresa ainda precisa ser explicado ou já é usado naturalmente?
Os usuários falam sobre a tecnologia ou sobre o resultado que ela entrega?
Essas respostas mostram em que degrau da pirâmide sua startup está — e o que falta para escalar.
A pirâmide de Mensvoort nos lembra que toda inovação percorre um caminho: do extraordinário ao óbvio. O papel das startups talvez seja guiar essa jornada e acelerar o momento em que paramos de chamar algo de tecnologia e passamos a chamá-lo simplesmente de natural.
Fontes:
Koert van Mensvoort — Pyramid of Technology – Next Nature Network – https://www.nextnature.org/story/2015/pyramid-technology.
Kate Crawford — Atlas of AI (MIT Press, 2021) – https://katecrawford.net/atlas
Marshall McLuhan — Understanding Media (1964): “Toda tecnologia é uma extensão do corpo humano.”


