Coluna Abstartup: Alta performance não é “faca na caveira” o tempo todo
O que o triathlon de longa distância me ensinou sobre ciclos de desempenho, e como aplico no empreendedorismo.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIALTECNOLOGIAGESTÃO
Elizabeth Rocha
10/9/20254 min read
Sobre a publicação
Coluna escrita por Elizabeth Rocha e publicada no Blog da Abstatups
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2025


O que o triathlon de longa distância me ensinou sobre ciclos de desempenho, e como aplico no empreendedorismo
Domingo, 4h45. A cidade ainda dorme. No corpo, a roupa de borracha, no peito, uma alternância de medo e potência. Minutos antes da largada de mais um Ironman, lembro da treinadora: “Hoje é só administrar. Faz o que treinou”. Na água, na bike, na corrida e (descobri depois) na empresa também.
Muita gente confunde equilíbrio como a forma ideal de viver. Equilíbrio perfeito costuma ser uma linha reta… e linhas retas, sem esforço, raramente levam a lugares extraordinários. Por outro lado, viver “rodando em 100%” derruba a velocidade média: você acelera por alguns quilômetros, mas paga juros na forma de erro, retrabalho e exaustão. Entre os extremos, há uma estratégia mais inteligente: periodizar.
No triathlon de longa distância, periodização é o jogo em quatro atos: Preparação→ Carga → Pico → Recuperação. Antes de cada prova, eu “desequilíbrio” de propósito — treino mais, durmo melhor, corto distrações — e depois faço o deload: reduzo a carga para que o corpo absorva o estímulo. Quando ignoro essa janela, vem a lição na forma de lesão. Se insistir, vira lesão crônica ou doença – e o impacto é muito maior.
Empreender é parecido. Troque “planilha de treinos” por roadmap. Faça acordos claros com os stakeholders (preparação), limite o WIP (work in progress) e execute sprints que realmente constroem valor (carga), concentre energia para fechar bem as entregas com qualidade (pico) e proteja uma semana de alívio técnico por trimestre (recuperação) para: débitos técnicos, refatoração, POCs (provas de conceito) e aprendizado. A cadência fica mais estável, a qualidade sobe e as discussões melhoram, porque o time para, pensa e volta melhor.
A Neurociência explica por quê. O cérebro regula adaptação pelo princípio da allostase (2); sem pausas, acumulamos carga alostática: atenção cai, memória não se consolida, decisões pioram (3). A clássica curva em U-invertido mostra que pouca ativação é apatia (subutilização), ativação demais é pane (ansiedade, burnout). Alternar rede de tarefas (foco) com rede de modo padrão (insight, ócio) e sono viabiliza aprendizado. No dia a dia, respeitar ritmos ultradianos (blocos de 60–90 minutos com micro-pausas) ajuda a manter o ponto ótimo entre desafio e habilidade (4).
Resultado? Velocidade média maior, mesmo com momentos deliberados de desaceleração.
Como saber a direção? Métricas.
No esporte, observo sono (é a primeira pergunta que faço no 1:1, “como está seu sono?”), batimento ao acordar, body battery e VFC (variabilidade da frequência cardíaca). Em times, combino métricas de entrega (por exemplo: DORA (1)) com indicadores de qualidade (retrabalho, bug rate, impacto em produção, reabertura) e sinais de trabalho saudável (autonomia, clareza, criatividade e comprometimento). Se, após cada ciclo, retrabalho e tempo de correção caem, sua recuperação está funcionando.
Estamos no fim de setembro e vamos entrar no último trimestre do ano. Tenho um convite para o seu Q4: busque seus OKRs, KPIs ou a lista simples de objetivos para o ano que você fez, seja para você e/ou sua empresa, e que deixou na “gaveta” e abra seu calendário agora.
1) Decida 3 prioridades até dezembro: escreva 3 entregas realmente importantes e realizáveis (um ciclo por mês e diga não ao restante.
2) Bloqueie 1 janela de recuperação: reserve uma semana no trimestre para: aprendizados, correções, refinamentos e débitos técnicos – coloque no calendário agora e combine com o time (ou família).
3) Crie um ritmo básico: defina blocos semanais de 60–90 min de deep work sem reuniões + uma micropausa restaurativa (parque, caminhada breve, café calmo).
4) Métricas simples: escolha 2 e acompanhe antes/depois:
Retrabalho (nº de bugs ou reaberturas)
Lead time (tempo da ideia até a produção)
Regra de bolso: se não está no calendário, não existe.
No final do Ironman, já com a medalha na mão, lembrei dos primeiros quilômetros: eu não conquistei a medalha porque corri “no talo” o tempo inteiro; superei mais esse desafio porque soube quando acelerar e o principal quando não acelerar. Em produtos e empresas é igual: crescemos em ciclos — não em linhas retas.
Planeje o que ainda pode ser feito neste ano. Depois, me conte: qual será a sua tríade para o Q4?
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Vamos aprender juntos — o próximo ciclo começa agora.
Fontes:
(1) Forsgren, Humble & Kim — Accelerate (métricas DORA e cadência)..
(2) McEwen — allostase/carga alostática (base neurobiológica da recuperação).
(3) Walker & Stickgold — sono e consolidação de memória.
(4) Ritmos ultradianos (Kleitman).
(5) Endurance Periodization Review (Casado)


